Fomos a uma feira de casamentos. Uma, porque há muitas, de norte a sul do país. E se são necessárias, tal como os fóruns e sites de ajuda que desabrocham
internet fora.
O casamento já não é só uma festa de celebração de amor. É um negócio, um
mega-evento, uma mostra de dinheiro, de criatividade, de
personalidade e de sabe-se lá mais o quê.
Começa antes, muito antes, porque casamento que se preze planeia-se com entre um e dois anos de
antecedência. Ponto um, os convites. Fazer só um convite é coisa mediana. Há o convite para os pais, o convite para os padrinhos (que agora têm que ser muitos), o convite para as damas de honor e o convite para o resto dos mortais. Ponto dois, o vestido da noiva. Aliás, já não é um vestido, é uma mistura de elementos:
Tule, tafetá,
organza, seda selvagem, corte império, corte princesa, corte sereia, decote cai-cai, alças, rendas, aplicações de brilhantes e cristais, véus,
tiaras, laços e caudas, tudo tira-põe, à vontade da noiva. Mil e uma marcas. O noivo já não vai de fato. Pode ir de fato-duas-peças, fato-três-peças, fato-quatro-peças, pode levar gravata,
gravatão, laço, pode ir de preto, cinzento, azul, castanho, bege, branco, com ou sem chapéu.
A escolha do Copo d'água torna os noivos em autênticos gestores: Uma quinta, um restaurante, um barco, uma praia, um museu, uma sala alugada, a casa de família e uma empresa de
catering. Entre 55 e 120€ por pessoa, ora com ora sem bolo, ora com ora sem decoração, este oferece fogo de
artificio e o outro não.
Na igreja, já não interessa a missa. Interessa a passadeira vermelha, o coro a cantar, o
bouquet da noiva, a quantidade de meninos das alianças,
pagens e damas-de-honor. Já não chega que os amigos levem uns
kilinhos de arroz, cabe à noiva ter preparados
cartuxinhos de arroz pintado com as cores do casamento e missais maravilhosamente feitos à semelhança dos convites.
Depois chega-se à quinta. Há
placards da localização das mesas com todos os feitios, e há o tema que define todo o casamento. O tema, que é quase uma imposição porque casamento tem que ter tema, chamar números às mesas? Rude, muito rude. Se antes um
cartãozinho de agradecimento aos convidados chegava, agora é preciso gastar no mínimo 1,50€ com cada convidado e perder muitas horas de sono a pensar o que dar aos homens, às mulheres, às crianças e aos adolescentes.
Garrafinhas de licor beirão, charutos, chinelos,
echarpes, chocolates, plantas, espelhos... Durante o dia, não há um fotógrafo. Há uma equipa formada e bem preparada, que antes deu aos noivos o trabalho de comparar orçamentos. Que este são 1000€ mas traz só um álbum, que aquele oferece o álbum+álbum
coffee table e ainda há o outro que oferece uma
vitrine em acrílico para colocar o álbum qual
biblot livre de pó.
Depois chega o corte do bolo. Há que ter algo mágico e magnífico, como um
fogozinho de
artificio, uma água dançante, um concerto de violinos ou qualquer coisinha que gaste dinheiro. Há quem chegue ao bolo a cavalo, há quem tenha um bolo levado por monges, há de tudo.
E pronto, chega ao fim um dia extenuante que passou a correr e levou meses a ser preparado. E que custou muito dinheiro. E chega a realidade, de que agora continua a vida e que a luz do fogo de
artificio não dura assim tanto. E que é preciso esforço e energia, muita dela gasta nos preparativos. E depois chegam muitas separações, muitos divórcios porque não era bem aquilo.
Cá para mim, entre tantos preparativos e detalhes que não se podem descuidar, esquece-se o mais importante. Aquilo que nos fez em primeiro lugar ousar sequer ponderar passar o resto da vida com alguém e jurar perante Deus e todos os que quiserem ouvir que é para sempre: O amor.
Atenção, que não se magoe ninguém que faça/vá fazer algo do que escrevi. Eu própria vou fazer algumas coisas, exigências do que é hoje imposto. Não é uma crítica, é uma constatação.