segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Orgulho

Há pessoas que tiveram uma infância difícil. Há crianças que conseguem chegar a adolescentes sem nunca ouvir um elogio dos pais, sem saber o que é uma festinha, um carinho, um presente ou um abraço e um “adoro-te”. Há crianças que, tenho a certeza, quando se deitam à noite choram e pensam “Porquê eu?”. Que ganham tão cedo uma falta de amor próprio provocado pela falta de amor dos outros. Essas crianças, interiorizam facilmente que valem zero e que tudo o que de mau lhes acontece, é sua culpa. Tudo o que de mal acontece no mundo, é sua culpa. Todas as tareias, para não dizer pior, são merecidas: Afinal, não nasceram para serem felizes.
Na escola, sentem-se os mais feios e os que ninguém gosta. No Natal, são os únicos que não partilham as conversas, porque só pediram um brinquedo e nem o Pai Natal o trouxe. A pouca educação que têm, é aprendida por si próprio. É copiada aos outros. Porque não há quem lhes ensine que os dentes são para lavar, que a roupa é para trocar, que se juntam os talheres em cima do prato no final da refeição.
Pode não ser regra, mas a maioria destas crianças torna-se num adolescente problemático, que sem o apoio de alguém tem dificuldades em ultrapassar as crises normais da idade. E lá vão entrando por caminhos menos bons, lá vão fazendo escolhas menos acertadas. Que tantas vezes são só gritos por socorro, pequenos pedidos de ajuda disfarçados.
Eu conheço uma pessoa destas. Que teve tudo o que descrevi e tanto mais, que não se pode pôr em palavras. Com a diferença que ele, que chegou a adulto só com o que tinha aprendido por si próprio, não teve medo quando alguém o quis ensinar. Não se negou a aprender, e apesar de envergonhado assimilou tudo com uma humildade rara. Ganhou regras e hábitos, que o fizeram mudar as certezas de sempre.
Hoje, já longe daquele menino pequenino, continua a não saber o que é ouvir um elogio dos pais nem um sorriso de orgulho pelo homem em que se tornou. E a insegurança permanece.
No entanto, hoje é uma das pessoas mais bonitas que conheço. Porque apesar de não ser o tal menino pequenino e desamparado, mantém a sua essência, a genuinidade e a inocência, a generosidade de quem dá tudo o que tem, sem esperar nada em troca. Porque sem nunca ninguém ter esperado nada dele, hoje é um óptimo aluno, empenhado e ávido de aprender, e um trabalhador que veste a camisola, que se esforça e dá sempre, sempre o seu melhor. Porque teve a coragem de fazer aquilo que em alguma altura da vida todos ambicionamos: Quando um dia achou que a sua vida estava errada, pôs um ponto final e mudou completamente, num esforço desmedido em busca do caminho certo.
E eu, eu tenho um orgulho nele que ninguém, nem ele próprio imagina. Porque estou em crer que pessoas assim, há poucas. E sinto-me verdadeiramente abençoada por o ter na minha vida, apesar de às vezes nem saber bem se o mereço.

15 comentários:

C*inderela disse...

Infelizmente nem todos temos uma infância feliz. Mas é de louvar quem consegue achar o seu caminho depois de uma infância menos boa e que teve a coragem de mudar para melhor sem que o passado 'restringisse' o futuro.

Bjokas*

Sorriso disse...

Que bonito, Kika! Gostei muito deste texto. :)
E bem haja a essa pessoa que soube seguir o caminho certo. :)

Beijinhos

Olhos Dourados disse...

É de valor não desistir.

J disse...

como no euronews..

[sem palavras] =)

Ana disse...

Sabes, podias muito bem estar a falar de mim nesse texto. Revejo-me muito. Mesmo.

Kika disse...

Querida Hannah, então fica aqui publicamente expresso o meu orgulho em ti também ;)
Acho que todos os que se revejam neste texto, devem ter um grande orgulho próprio! E quem só se revê na infância dificil, que fique aqui com a prova de que é possível mudar e ser feliz ;)

Isa disse...

Linda história! Mostra-lhe esse orgulho!

Marcia disse...

Sem dúvida que tens de sentir muito orgulho nesse 'menino'.

A MARZ disse...

"Falaste" muito bem! Sou sincera que não sei o que éum beijo dos meus pais. Dão-me quando faço anos, no natal e na passagem de ano. Não é por isso que gosto menos deles mas muitas vezes gostava de ter uma palavra de carinho, de força, de incentivo... Sei que gostam de mim, claro são meus pais mas às vezes falta aquele gesto que muda tudo. A minha mãe é "pior". O meu pai é dferente de vez em quando lá vai um carinho mas julgo que isto seja assim pelas suas maneiras de ser porque de resto não tenho nada que me queixar. Nunca me faltou nada. Sempre tive roupa, comida na mesa, qualquer tipo de coisa que fosse necessária na escola, dinheiro para sair, algum presente que quisesse. Sempre que podiam, davam-me tudo. Agora não noto tanto, até porque mudaram um pouco, estão mais interessados pelos meus estudos, o que antes não acontecia pois eu tinha más notas e nunca fui castigada por isso chumbei e também nunca me castigaram mas pronto... Não tenho assim tanto que me queixar mas há crianças que passam bem pior!!! Muito bom post, adoro passar aqui. É sempre tudo tão simples, muito natural mas que diz tanto.... Os teus posts são naturais, saiem com naturalidade. adoro mesmo. beijinhos.

Kika disse...

Marz, obrigada pelo comentário.
Pelos vistos, há bastante gente que se revê. Umas com uma parte, outras com outra... Acho que a situação mais comum deve ser a tua, falta de demonstrações de amor e afecto, que tantas vezes preferiamos a um presente :)

A MARZ disse...

Exactamente, um carinho faz tanto! Deixa-nos completamente felizes. Agora os meus pais estão um pouco mudados porque muitas vezes lhes disse o que não faziam, principalmente a minha mãe, porque o meu pai tem algumas conversas comigo. Acho importante a comunicação entre os pais e filhos e o meu pai teve uma boa conversa comigo quando eu mais precisei e ai senti muito o apoio dele e isso valeu-me também de muito, deu-me muita força. Não posso dizer que a minha mãe me dá um beijo quando chego a casa ou quando sai de manhã mas gosto deles à mesma! Há crianças que passaram bem pior do que eu e são essas que necessitam de força porque eu sei bem que aquilo que sei hoje aprendi sozinha,mas nisso eu tenho orgulho. Sou forte embora ultimamente me reconheça fraca num certo assunto (isto é um pouco do meu post de hoje) . Acho que me conheco muito bem, mas esta fraqueza fintou-me. Fala do assunto um dia destes, eu sempre que posso venho aqui deixar-te a minha opinião! :D

Rapunzel disse...

Ainda bem que há sempre excepções!

Claro que mereces...D. Kika! :)

Bjs

Girl in the Clouds disse...

Dou valor às pessoas que ultrapassam esses traumas!! Mas, é um passo importante para a felicidade e se sentirem confiantes.

Nirvana disse...

Kika, amei, não só o teu texto, mas principalmente o carinho implícito nele. O orgulho também, e que razões tens para isso!
Ver as coisas com os olhos que vês não é comum. Na maior parte das vezes essas crianças, que depois se tornam adolescentes e homens/mulheres apenas encontram uma coisa nas suas vidas disfuncionais: mais disfunção, mais razões para odiarem o mundo e as pessoas. Raros são os que vêem uma mão estendida, e mais raros ainda os que se conseguem erguer sem essa mão, só com a sua força de vontade. A isso chamo VALOR.
Beijinhos, Kika

Ana disse...

Obrigada Kika, és uma querida :)