domingo, 24 de janeiro de 2010

Divórcios

Entre ontem e hoje desenvolvi uma teoria, cientificamente não-provada, mas que tem como base muita observação, muita investigação e experimentação.
Quando nos apaixonamos, partilhamos apenas bons momentos. Não quer dizer que, se algo de mal acontecer a um, o outro não esteja lá. Como companheiro e amigo. Mas no resto do tempo, somos companheiros de aventuras, de piadas, de passeios, de pequenos-almoços com vista para o mar, de almoços ao sol, de lanches doces e de jantares à luz das velas.
E chega o casamento (a junção), também serve. Passamos a ser também companheiros de limpezas (em que uns limpam sempre mais que outros), companheiros de arrumações, companheiros de contas de cabeça para o dinheiro esticar até ao fim do mês. Mais tarde, podemos até vir a ser companheiros na educação dos filhos. O tempo não estica, nós próprios também não. E, gradualmente, deixamos de nos rir com a piada costumeira que ele dizia, para revirarmos os olhos e pensarmos "Que palerminha, eu aqui a fazer contas para ir ao supermercado, e ele a fazer piadolas". Chegamos a casa e não olhamos para o outro com desejo e paixão, é mais um olhar de alívio. Porque chegamos a casa e precisamos de lhe contar o desacato que houve no trabalho, o que o estúpido do colega disse, o que o parvo do chefe fez.
Os fins-de-semana também mudam. Se antes, eram passados em cafés, cinemas, passeios ou simplesmente sentados num banco de jardim, agora há o sofá da sala que para eles é bem mais atraente. Porque antes, era nesses passeios que estávamos juntos. Agora é todos os dias. E é bem sabido que o chamado Quality time não é igual para todos.
A minha teoria é que, somewhere along the road, num momento ou parte indefinida, deixamos de nos saber divertir. Não de propósito, mas porque somos atropelados por um camião TIR de assuntos mais importantes, dos quais depende a nossa sobrevivência. E aos poucos, deixamos de saber rir um do outro e um com o outro. E os problemas envolventes fazem aumentar a sensibilidade, a irritabilidade, e tornam o grito fácil e o rastilho da discussão cada vez mais curto. Tornam-nos em pessoas mais deprimidas, mais revoltadas, mais resmungonas. O que, inevitavelmente, faz de nós mulheres e maridos menos compreensivos, bem dispostos e bem com a vida. E depois vem a zanga, a raiva e o cansaço, que chegam de mansinho e camuflados pelos dias bons, mas acabam por chegar. E sentimos-nos tristes, num beco sem saída em que mais vale só que mal acompanhado. (E às vezes, no intermeio, ainda há uma terceira pessoa que nos aparece qual bálsamo de diversão).
Por isso, compreendo todos aqueles que se divorciam e ainda amam. Porque na vida a dois, o amor é apenas uma peça. E o puzzle, chama-se não nos esquecermos do motivo porque nos apaixonámos e casámos.

Claro que há excepções. Mas nada nos garante que, com os problemas que a vida às vezes traz ou simplesmente com o correr dos dias, essas excepções que ao fim de muitos anos ainda se lembram do que é viver, não o desaprendam.

11 comentários:

Queen of Hearts disse...

Gostei muito deste teu texto, Kika. Nada desprovido de verdade... Infelizmente.

Lady Me disse...

Infelizmente concordo. É disto que tenho medo, muito medo... Mas há que lutar para que não seja assim connosco, embora seja muito difícil.

Girl in the Clouds disse...

A vida a dois não é fácil!!

Nirvana disse...

Bem visto, Kika. Esse é um dos problemas das relações. A acomodação. O tornar o outro um hábito, um amigo. Claro que tem de ser amigo, mas não só, e nunca um hábito. Esquecemo-nos de os surpreender, esquecemo-nos até muitas vezes de nós.
É por isso que é preciso ter bem ciente que ele é o meu marido/companheiro/namorado, não o meu amigo, não uma pessoa que já não gosta de um mimo, de um abraço quando menos se espera, etc, etc, etc.
É uma das razões, sem dúvida.
Beijinhos

Su m disse...

Kika, devo dizer-te que gostei do teu texto. Objectivo e extremamente realista.
Eu tenho o receio de que isso me bata à porta. Infelizmente não posso ter a certeza de que nunca acontecerá.
Posso no máximo tentar evitar que aconteça, com muita vontade e disciplina - mesmo quando não apetece - de sorrir com ele, passear com ele, vê-lo e fazer com que ele me veja. É isso que tento, dia após dia. Espero conseguir continuar a fazê-lo.

Kika disse...

Lady me: Acho que querer e lutar, é meio caminho andado.

Nirvana: Acho que, especialmente com os problemas, o lado de amigo torna-se tão importante que esquecemos todos os outros... E tomamos como garantido. Um hábito, como dizes. E isso é um grande passo para a desgraça ;)

Su: Nenhuma de nós está livre, como disse. Nunca tinha pensado nisto como uma questão de vontade e disciplina, como dizes. Mas tens razão, acho que no meu caso pessoal um bocadinho de disciplina, de dizer sim quando apetece dizer não, não me faria mal. Espero que continues, e que consigas.

S* disse...

O casamento, o viver junto, expõe demasiado as pessoas... deixamos de ver só o bonito.

Anira the Cat disse...

Viver uma relação é percorrer uma estrada... a dois. Muito bom o teu texto, e muito verdadeiro.

Bjokas

Um gajo qualquer... disse...

A esta tua teoria acrescentaria logo após o capítulo das discussões e zangas, o Silêncio.

Afinal, e como diria um grande professor que conheci...: "Se não te dizem o que é que estás a fazer mal, é porque já perderam a esperança que o venhas a fazer bem."

Rapunzel disse...

been there...done that...

Bjs

Olhos Dourados disse...

Pois, tens razão.