sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Das mentiras e do tempo

Há quem viva numa mentira tão grande e bem construída, com retoques e requintes definidos a régua e esquadro, que creio que chegue mesmo a acreditar que a realidade paralela e perfeita que construiu e insiste em mostrar é a verdade.
Há quem viva uma personagem tão bem desenhada, com as características que todos apreciamos e sem dias maus ou tristezas, que provavelmente se vê ao espelho como gostava de ser, ao invés de como é.
Mas um dia o pano cai, cortina fecha,  peça acaba e o teatro declara falência. E os espectadores, aqueles que pagaram bilhete para ver um espectáculo de primeira categoria, percebem que afinal por trás da maquilhagem, das roupas brilhantes e acessórios vistosos, está só uma vida como a deles. Como a de todos nós. Normal, banal, com altos e baixos. E levantam-se, sussurrando baixinho que não foi como estavam à espera. Primeiro um, depois outro, e mais outro. Uns reclamam o dinheiro na bilheteira e outros simplesmente voltam costas.
Até que no teatro, no enredo que construiu, fica só e sozinha uma pessoa. A que mentiu.
Porque a mentira é assim. Pode demorar um acto ou uma peça inteira mas revela-se. Tal como a justiça. Que pode tardar mas raramente falha.

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