
"O mal desta auto-intitulada geração à rasca é a incapacidade que revelam. Habituados, mal habituados, a terem tudo de mão beijada. Habituados, mal habituados, a não precisarem de lutar por nada porque tudo lhes foi sendo oferecido. Habituados, mal habituados, a pensarem que lhes bastaria um canudo de um qualquer curso dito superior para terem garantida a eterna e fácil prosperidade. Sentem-se desiludidos. E a culpa desta desilusão é dos "papás" que os convenceram que a vida é um mar de rosas."
Lá vou eu lançar-me em demagogias que nem me pertencem e em guerras que não quero nem dadas. O mal de todas as gerações é serem peritos em história evolutiva do ser humano, em sociologia, psicologia, antropologia, biologia e outras ias, que explicam por A mais B que a minha geração é melhor que a tua. As gerações mais novas estão sempre a destruir o que as mais velhas construíram, e as gerações mais velhas são as que educaram as mais novas, logo culpadas por tudo. Ninguém gosta de generalizações, especialmente porque fica tão bem dizer que não se gosta de generalizações, mas a verdade é que todos generalizamos (Eu a generalizar) porque falar caso a caso era pano para mangas que não temos tempo para coser.
Não sei se a minha geração é ou está à rasca, ou se deixa de ser ou estar. Mas uma coisa eu sei: Se o são ou estão, não é com toda a certeza apenas por não quererem trabalhar, por falta de humildade ou excesso de mimo.
Estamos a falar de gerações que cresceram com dúvidas. A ouvir falar nas catástrofes ambientais, nos raptos e na violência. Que cresceram nas cidades, com os avós nos campos e os pais a trabalhar. Que cresceram em infantários, com menos disponibilidade dos pais do que seria desejado. Que viram os pais fazerem pela vida e em tantos casos serem castrados por injustiças ou outros que tais, serem explorados e muitas vezes desempregados. Não estamos a falar de uma maioria que tenha uma horta para cuidar se o emprego não der nem meios de garantir as necessidades básicas se não houver dinheiro. Estamos a falar de jovens que cresceram em caixotes, com um mês de férias na terra (Ou em colónias de férias).
Esses jovens são hoje adultos. E querem ter filhos mas não podem que não há condições, e enquanto querem ter filhos e não têm preocupam-se com os pais que pouco antes da idade da reforma vêem-se em casa, com ou sem subsídio de desemprego, mas a considerarem-se uns inúteis e incapazes. Garanto-vos: Isto é coisa para deixar muita gente à rasca.
Esses jovens sonham com um trabalho melhor. Não só mais bem pago, mas essencialmente mais justo. Porque cresceram a ouvir dizer que o 25 de Abril fez-se com as mãos do povo que queria a igualdade. E revoltam-se, pois claro. Não pelo excesso de trabalho ou pela falta de dinheiro, mas pela quantidade de injustiças que se vê todos os dias.
Esses jovens não têm uma casinha que era dos avós para recuperar, porque a casa dos avós ficou lá longe na terra. Nem têm os pais como fiadores, porque os pais têm os seus próprios empréstimos por pagar. Têm amor, com muita sorte. Mas não têm dinheiro nem quem os possa ajudar caso precisem.
Quando se fala em gerações, não há quem tenha mais que os outros. Há sim, quereres e teres diferentes.
Os meus pais tinham poucos brinquedos mas brincavam na rua. Eu tive alguns brinquedos, não brincava na rua, mas se pedisse para ir a pé a casa da minha tia deixavam-me. Os miúdos de hoje têm muitos brinquedos, não brincam na rua e não saem sequer da porta do prédio sem os pais. É a vida, é a evolução, pela qual somos totalmente responsáveis. Como tudo há o lado bom e o lado mau da cassete. Era bom que houvesse evolução na direcção da cura de todas as doenças imagináveis, e que se curasse também a maldade e estupidês humana. Talvez um dia. No país das maravilhas.
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