quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O que nos lixa?

Hoje de manhã ia escrever sobre todo este movimento da nossa geração que passou de rasca para à rasca, mas a minha querida comadre antecipou-se e não tenho necessidade de repetir o que ela já muito bem disse.
Acrescento só mais um bocadinho de lenha à fogueira, só mais uma achega para que nos consigamos todos entender sobre este assunto.
O que nos lixa não é só a crise. Nem a de valores, nem a económica. O que nos lixa é que fomos apanhados numa lacuna entre o que a sociedade nos preparou para sermos e a falta de preparação da sociedade para nós.
Crescemos a ouvir dizer que era preciso estudarmos, porque quem estuda vai longe e tem melhores condições de vida. Estudámos, tirámos licenciaturas, mestrados e pós-graduações. E desembocámos num mercado sem capacidade para absorver tanta gente formada. E tal como estudámos, quando a oferta é maior que a procura os preços baixam, e afinal estudar não nos traz uma qualidade de vida assim tão superior.
Fomos educados a seguir uma área que nos apaixone, que trabalhando no que gostamos somos bons e somos felizes. Foi o que fizemos, com a certeza que era o melhor, até nos começarmos a aperceber de que gostar do que se faz não é suficiente para ser feliz. Ter trabalho ajuda, ser (bem) pago e ter alguma independência também não é má ideia.
Ensinaram-nos a importância de lutar pelo que se quer, de ser dinâmico, criativo, pro-activo. Mas quando nos regemos por esses ideais, somos jovens tolinhos que acabaram de sair da universidade com a mania que sabem tudo. E cortam-nos as pernas à primeira oportunidade, porque há muito poucos chefes preparados para serem líderes de uma geração que estudou, que tem cérebro, que tem ideias e que quer ser parte activa do negócio em que trabalha.
Criados por uma geração que fez dos cravos uma revolução, fomos incentivados a fazer valer as nossas ideias e convicções. A não deixar que nos pisem, a sermos exigentes connosco e com os outros. Com esse espírito chegamos ao mercado de trabalho e rapidamente arrumamos as convicções no bolso porque ainda estamos na sociedade do eu mando e tu obedeces, em que um aumento não é um direito mas sim um favor que nos fazem. Pedir um aumento, reivindicar por melhores condições de trabalho, não aceitar ou concordar com tudo o que nos dizem, afinal é ser insolente, sempre descontente e preguiçoso.
Assim nos tornamos na geração que vai sendo capaz do melhor e do pior, da geração que não casa e só se divorcia. Porque somos todos intolerantes, mimados e impacientes, mas afinal o que acontece é que nos ensinaram que entre homem e mulher deve haver igualdade, e quando vamos a ver há umas quantas pessoas que se devem ter baldado à parte prática desta disciplina.

3 comentários:

inês disse...

Está tudo virado do avesso!! Já não há limites...

Joana | My Pretty Mess disse...

Umas quantas verdades...
Embora eu ache que a parte de "seguir o que gostamos" é um risco demasiado grande em cursos como direito, gestão, literaturas...

:/

Lua disse...

Infelizmente, a realidade que vivemos traduzida na perfeição...