O primeiro passo para estarmos bem é acabarmos as guerras. Não vale de nada ambicionar paz no mundo, no casamento, na família, no trabalho, quando entre nós e nós mesmos existe o abismo e a raiva.Primeiro que nada é preciso olharmos para o que fazemos. E porque fazemos.
Impomos a nós próprias verdades e objectivos completamente desfasados do que somos. Acordamos, levantamo-nos, saímos de casa e deixamos tudo limpo e arrumado, trabalhamos um dia inteiro, aturando o mau-humor dos outros sem nos permitirmos a nós próprias dar liberdade ao nosso humor. Voltamos a casa, tratamos de tudo, riscamos todos os pontos da lista de coisas a fazer que escrevemos mentalmente durante o dia e vamos dormir. E pelo meio ainda conseguimos tempo para ir ao ginásio, para ligar à mãe, à comadre e à irmã, para acudir a uma amiga que precisa de desabafar e fazer umas compras de última hora.
Exigimos tudo isto, e tudo sem bufar, sem respirar, sem ter acessos de mau génio, sem comer doces, a cortar nos hidratos de carbono. E depois um dia temos vontade de comer um chocolate inteiro, que é mais resultado de uma série de frustrações do que de fome. E no dia a seguir gritamos com o marido que coitado, até merecia o berro (mas nós temos que ter calma!). E passado pouco tempo, esquecemo-nos de comprar manteiga e agora vão todos ter que comer torradas com doce ou margarina ao pequeno-almoço. E aí, aí é o fim do mundo. Esquecemos tudo o que fizemos o dia todo, e somos as piores. As mais incompetentes. As mais descontroladas. As maiores coitadas. Como não o gostamos de sentir, rapidamente a culpa torna-se de quem está à nossa volta. Comemos o chocolate inteiro sem parar para respirar, porque a sogra está sempre a oferecer-nos doces e deve querer engordar-nos à força. Gritamos com o marido porque ele é um incompetente que não faz nada de jeito e não nos compreende. Esquecemo-nos de comprar manteiga porque alguém acabou o pacote e não nos avisou ou porque estávamos ao telefone com a mãe e se não estivessemos não nos tínhamos esquecido.
E no meio desta lufa-lufa, entre o ser perfeita, o não conseguir e o arranjar desculpas, perdemos o norte a quem somos e onde acabamos, esquecemo-nos dos nossos limites. E andamos em guerra constante. Com as dietas e os chocolates, com o marido, o casamento e a família, com o chefe, a colega chata e o trabalho, e sobretudo, connosco próprias.
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