terça-feira, 2 de março de 2010

Dois anos



Um dia resolvi que era a altura certa para mudar. De vida, de cidade, de "estado civil". Procurei trabalho, rezei muito, e encontrei. Procurámos casa com mais pressa que juizo, e sem pensar muito mudamo-nos. Sem nada e sem grandes poupanças, comprámos o essencial para sobreviver.

Começei a reaprender a viver, numa cidade que não era a minha.

Primeiro mudei de banco, para um balcão perto de casa. Depois encontrei uma manicure e inscrevi-me nas aulas de pilates. Fui descobrindo: Uma esplanada onde gostava de estar, a ler e ao sol, uma pastelaria com os melhores bolos do mundo.

Um dia a necessidade levou-me às ruas antigas, à procura do centro de exames. Noutra altura, conheci as urgências do hospital. Já sei o nome das farmácias, e quais têm o horário mais alargado.

Uma a uma, fui conhecendo as livrarias, sapatarias, ourivesarias e lojas de roupa da cidade.

Sai do pilates e fui para o step. Sai do step e fui para a hidroginástica. E ainda tenho o cartão das piscinas municipais, para ir nadar quando o meu horário complica.

Fiz o cartão do cidadão, alterei a minha morada, votei na minha nova junta de freguesia. Inscrevi-me no centro de saúde e já tenho o cartão de fidelização das perfumarias cá do sítio.

Já sei distinguir as várias rotundas pelos nomes que quem sempre cá morou lhes dá. Já sei o melhor caminho para qualquer lado, e sei onde se come a melhor morcela de arroz, as melhores bifanas às 3h da manhã e a melhor pizza.

Foi aqui nos bombeiros que me inscrevi como dadora de medúla, e foi no cimo da rua principal que dei sangue pela primeira vez.

Hoje, a sair do trabalho, olhei para cima e vi o castelo. Imponente, de vigia.

Que me vê, lá do alto, a criar raizes nesta terra que era dele e que agora também é minha. E do rio, que atravessa as ruas a correr ao nosso lado, lembrando-nos que é como a vida: Um dia mais vazio, logo a seguir mais cheio.

E já correram dois anos, à velocidade de todos os dias e das muitas coisas que aconteceram. Dois anos desde que vim viver para esta cidade à beira-rio, guardada pelo castelo.

12 comentários:

Su m disse...

Gostei da descrição... parece-me que tens uma excelente qualidade de vida.
Às vezes sinto falta da tranquilidade e calma de uma cidade menos urbana. Às vezes dou por mim quase a sufocar com a correria da grande cidade.

Espero que daqui por 2, 5, 10 anos estejas a escrever na mesma linha de raciocinio.

Carina Oliveira disse...

Olha foi excelente este momento. Ainda hoje de manhã pensei numa frase que não me sai da cabeça e agora ao ler este post, faz ainda mais sentido.
Os lugares são aquilo que fazemos deles. Tu aceitaste essa como tua nova casa e foste construindo o teu ninho. Hoje ja te consideras em casa. Assim mesmo é que é.

Um beijo grande

Anira the Cat disse...

Nos últimos 10 anos troquei de cidade 4 vezes... é sempre difícil criar raízes a partir do nada, mas aprende-se, e muito.

Bjokas

Nadyta disse...

E que venham muitos mais anos e felicidade :)

anf disse...

Eu gostava de sentir essa alegria ao descrever estes dois últimos anos.
Gostei muito,

Luadoceu disse...

O tempo voa
Tens um miminho no meu novo blog
Sua malvada, nem uma visitinha...

Olhos Dourados disse...

Agora é a tua terra.

Meg disse...

Eu senti isso dp de um ano fora. Pior ainda? Agora sinto que nem pertenço a um nem a outro lado do oceano...weird, isn't it?

Parabens pela nova vida :D *

Nirvana disse...

É muito bom, Kika, quando as nossas opções nos levam aos caminhos e aos sítios certos! Parece-me o caso!
Beijinhos

Cinderela disse...

Epá, fizeste uma descrição tão sentida, que até a mim me apeteceu largar tudo e recomeçar noutro sítio. :)

Dear Daisy disse...

Que bonito..
Eu tb passei por isso, embora com pormenores diferentes no desenrolar das história..
Continua a ser feliz nessa tua terra!!

Pinkk Candy disse...

Adorei a tua descrição! Conseguiste plantar as tuas raízes e isso é muito bom! Ainda bem! =)

Moras onde? Castelo, rio? hmmmm


xoxo