
Um dia resolvi que era a altura certa para mudar. De vida, de cidade, de "estado civil". Procurei trabalho, rezei muito, e encontrei. Procurámos casa com mais pressa que juizo, e sem pensar muito mudamo-nos. Sem nada e sem grandes poupanças, comprámos o essencial para sobreviver.
Começei a reaprender a viver, numa cidade que não era a minha.
Primeiro mudei de banco, para um balcão perto de casa. Depois encontrei uma manicure e inscrevi-me nas aulas de pilates. Fui descobrindo: Uma esplanada onde gostava de estar, a ler e ao sol, uma pastelaria com os melhores bolos do mundo.
Um dia a necessidade levou-me às ruas antigas, à procura do centro de exames. Noutra altura, conheci as urgências do hospital. Já sei o nome das farmácias, e quais têm o horário mais alargado.
Uma a uma, fui conhecendo as livrarias, sapatarias, ourivesarias e lojas de roupa da cidade.
Sai do pilates e fui para o step. Sai do step e fui para a hidroginástica. E ainda tenho o cartão das piscinas municipais, para ir nadar quando o meu horário complica.
Fiz o cartão do cidadão, alterei a minha morada, votei na minha nova junta de freguesia. Inscrevi-me no centro de saúde e já tenho o cartão de fidelização das perfumarias cá do sítio.
Já sei distinguir as várias rotundas pelos nomes que quem sempre cá morou lhes dá. Já sei o melhor caminho para qualquer lado, e sei onde se come a melhor morcela de arroz, as melhores bifanas às 3h da manhã e a melhor pizza.
Foi aqui nos bombeiros que me inscrevi como dadora de medúla, e foi no cimo da rua principal que dei sangue pela primeira vez.
Hoje, a sair do trabalho, olhei para cima e vi o castelo. Imponente, de vigia.
Que me vê, lá do alto, a criar raizes nesta terra que era dele e que agora também é minha. E do rio, que atravessa as ruas a correr ao nosso lado, lembrando-nos que é como a vida: Um dia mais vazio, logo a seguir mais cheio.
E já correram dois anos, à velocidade de todos os dias e das muitas coisas que aconteceram. Dois anos desde que vim viver para esta cidade à beira-rio, guardada pelo castelo.
12 comentários:
Gostei da descrição... parece-me que tens uma excelente qualidade de vida.
Às vezes sinto falta da tranquilidade e calma de uma cidade menos urbana. Às vezes dou por mim quase a sufocar com a correria da grande cidade.
Espero que daqui por 2, 5, 10 anos estejas a escrever na mesma linha de raciocinio.
Olha foi excelente este momento. Ainda hoje de manhã pensei numa frase que não me sai da cabeça e agora ao ler este post, faz ainda mais sentido.
Os lugares são aquilo que fazemos deles. Tu aceitaste essa como tua nova casa e foste construindo o teu ninho. Hoje ja te consideras em casa. Assim mesmo é que é.
Um beijo grande
Nos últimos 10 anos troquei de cidade 4 vezes... é sempre difícil criar raízes a partir do nada, mas aprende-se, e muito.
Bjokas
E que venham muitos mais anos e felicidade :)
Eu gostava de sentir essa alegria ao descrever estes dois últimos anos.
Gostei muito,
O tempo voa
Tens um miminho no meu novo blog
Sua malvada, nem uma visitinha...
Agora é a tua terra.
Eu senti isso dp de um ano fora. Pior ainda? Agora sinto que nem pertenço a um nem a outro lado do oceano...weird, isn't it?
Parabens pela nova vida :D *
É muito bom, Kika, quando as nossas opções nos levam aos caminhos e aos sítios certos! Parece-me o caso!
Beijinhos
Epá, fizeste uma descrição tão sentida, que até a mim me apeteceu largar tudo e recomeçar noutro sítio. :)
Que bonito..
Eu tb passei por isso, embora com pormenores diferentes no desenrolar das história..
Continua a ser feliz nessa tua terra!!
Adorei a tua descrição! Conseguiste plantar as tuas raízes e isso é muito bom! Ainda bem! =)
Moras onde? Castelo, rio? hmmmm
xoxo
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